sexta-feira, 12 de março de 2010

O CONTEXTO DOS INTERNATOS

Ao fazermos uma reflexão sobre os motivos que levam um jovem a ingressar numa escola técnica agrícola em regime de internato, podemos pensar em múltiplas questões. O adolescente que está vivendo a maior fase da vida no que se refere ao turbilhonamento de hormônios e fantasias, transformações físicas e emocionais, descobertas sexuais e tantas outras mudanças, "opta" por uma escolha profissional que além de direcionar seu futuro, marca seu presente e pode ser determinante em muitos aspectos futuros. Ele ainda não abriu mão de sua infância, assim como não atingiu a maturidade para assumir uma vida adulta.

Levando em conta este contexto, poderíamos nos perguntar:
-estes jovens estão prontos para uma definição profissional tão precoce?
-por quê optar por uma escola técnica?
-a escolha do regime de internato se deu por qual motivo?
-como o fato de estar distante dos pais repercute na estrutura emocional dos alunos?
-qual importância da escola nas suas vidas?

É difícil termos todas as respostas, mas podemos pensar que assumir responsabilidades dá ao adolescente a possibilidade de experimentar. E experimentar, ter boas vivências, é fundamental para o desenvolvimento de uma personalidade capaz de dar conta das dificuldades que a vida apresenta.

Estar distante da família e participar de uma organização que ensina, organiza e impõe regras pode trazer grande retorno pessoal, principalmente em um momento de vida em que se observam comportamentos para testar limites, transgredir.

É claro que não é um processo fácil para nenhuma das partes, ou seja, a escola, os professores, pais e alunos. Estamos falando de jovens com uma história pessoal, com um jeito próprio de ser, e que nem sempre se adaptam facilmente ao formato do ensino em questão. E assimtambém acontece com a escola e com os professores, que tem que lidar com as peculiaridades encontradas em escolas técnicas agrícolas e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade de educar, proteger e também desenvolver aspectos de maturidade e cidadania nestes jovens que os pais lhe confiaram.

A escola e os professores, além da própria formação profissional, acabam por assumir atribuições que, a princípio, seriam da família, como ensinar o respeito ao próximo, a organização pessoal, a seguir regras, enfim...a amadurecer. É lá que o então aluno vai buscar espaço para errar, desabafar, experimentar, conviver, testar limites, se conhecer.

Portanto, seu vínculo com a instituição e com os professores é fundamental, pois só a partir dele poderá criar o seu espaço e também desenvolver sua individualidade na "família-escola", dividindo a atenção com seus "irmãos-colegas" e tendo como referência seus "pais-professores".

Podemos penar que é exatamente esta "família" em novo formato e a forte ligação com os professores que possibilitam a adaptação dos alunos, fazendo com que tolerem a distância do núcleo familiar. É por este motivo que o vínculo deve ser estimulado e sempre reforçado por todas as pessoas que compõem a instituição. Criar espaços de convivência, onde os jovens tenham a possibilidade de expressar suas inseguranças, seus medos, trocar experiências, fazer questionamentos, poderá ser uma forma de ajudá-los na elaboração da tão comum - e já esperada - ansiedade, implícita em processos e situações como estas.

Com isto, poderemos questionar as competências da comunidade escolar. Será que diretores, professores e funcionários estão aptos a lidar com esta gama de questões e conflitos? É imprescindível que todos estejam respaldados por profissionais da Saude, que possam orientá-los no dia a dia e auxiliá-los na resolução de problemas de comportamento quanto nas suas próprias dúvidas e preocupações em função da responsabilidade que lhes é requerida.

No Rio Grande do Sul, região do País na qual o setor agropecuáro é um dos carros-chefe da economia, a possibilidade de ser estudante de uma escola agrícola é, sem dúvida, uma opção inteligente. além das razões de mercado, existem os fatores sociais. Espera-se, de forma óbvia, que o Estado preste a devida atenção a este setor, garantindo recursos humanos devidamente habilitados, tanto na orientação quanto na garantia de segurança dos adolescentes. Infelizmente, muitas escolas precisam "se virar com jeitinhos" e, além de não serem atendidas nas suas necessidades básicas, são constantemente cobradas pela mantenedora por ações que, nas condições atuais, são impossíveis de serem realizadas. O panorama é claro e evidente, e está aí para quem quiser ver.

Publicado na Revista "Letras da Terra" - AGPTEA (Associação Gaucha de Professores Técnicos de Ensino Agrícola) - agosto de 2008

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